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Pe, Rogèrio Augusto de Oliveira

Vigário Paroquial da matriz de Nossa Senhora da Assunção – Barbacena – MG

Ressurreição ou reencarnação?

Nós, cristãos católicos, estamos nos preparando para celebrarmos a maior festa cristã, ou seja, a Páscoa do Senhor, a sua ressurreição que é o fundamento de nossa fé. E, ao falarmos em ressurreição, ou seja, na vida que vence a morte, sempre surge nas conversas das pessoas e, inclusive entre os próprios católicos, a pergunta sobre a reencarnação. Por isso, no jornal paroquial Ágape, achamos por bem, esse momento propício para discorrermos sobre a importância de conhecermos a doutrina sobre a reencarnação e a ressurreição, para percebermos que não é possível acreditar em ambas ao mesmo tempo. Sabemos, outrossim, que tudo que se diz sobre o além da morte sempre foi motivo de variadas interpretações ao longo da história da humanidade. Grande parte das religiões ditas naturais sustenta sua crença numa visão cíclica da história, ou seja, num eterno retorno, no qual a existência humana como a conhecemos não é a primeira nem será a última forma aqui na terra. Na sucessão da existência, essas religiões afirmam a crença de que a alma humana é imortal e assume, através dos tempos, diversos corpos. Há religiões que admitem inclusive que a alma humana se encarne em corpos de animais.

O Judaísmo, entretanto, afirma que o mundo teve um começo e terá um fim, que a existência humana nesse mundo é única e inrrepetível. O Judaísmo alicerça sua doutrina na revelação de Deus. O Cristianismo, por sua vez, herdeiro dessa revelação, sempre professou a fé na ressureição dos corpos como uma consequência da ressurreição de Cristo. Mas, embora a doutrina cristã da ressurreição seja clara, muitos cristãos aceitam também a crença da reencarnação. Surge então a questão: a crença na reencarnação é conciliável com a fé na ressurreição, sabendo que essa é central na vida do cristão? Perguntamos: o que se entende por reencarnação? O que os cristãos entendem por ressurreição? Por que a crença na reencarnação é incompatível com a fé na ressurreição? Por reencarnação entende-se uma doutrina, defendida por religiões orientais (budismo e hinduísmo) e por grupos espíritas  segundo a qual a alma humana, após a  separação do corpo pela morte, e passados mais ou menos tempo, vai animar outro corpo, ou seja, volta a reencarnar. Reencarnação significa “encarnar” de novo. Quando o homem morre seu corpo é levado ao cemitério, Mas segundo a crença reencarnacionista, o espírito ( a alma) ainda não tendo chegado à perfeição, deve purificar-se e, por isso, retornar à terra num outro corpo. A reencarnação é , pois, a crença segundo a qual a alma ou elemento psíquico, ou o corpo sutil se realiza em existências sucessivas, assumindo em cada qual um corpo diferente, no qual se reencarna”. Segundo essa crença, em cada indivíduo se dá uma sucessão de nascimentos e de mortes, podendo falar-se assim de “novo nascimento”.

Nos meios cristãos dos primeiros séculos, ninguém sustentou a doutrina da reencarnação, a qual não tem a menos base nas Sagradas Escrituras. No século XIX, a reencarnação converte-se, na Europa e na América, no tema central dos meios ocultistas e espíritas. O Espiritismo, fundado por Allan Kardec (1804-1869), penetra sempre mais nos meios cristãos da América Latina, sobretudo no Brasil. Os espíritos, segundo Kardec, no início foram criados por Deus, todos iguais,  e cada qual com livre arbítrio. A hora de encarnar, em última análise, depende do livre arbítrio de cada espírito. A reencarnação não acontece necessariamente na terra, pois pode realizar-se em outro planeta. Por isso é comum que os espíritos kardecistas falem de outros planetas habitados. Nas últimas décadas, o movimento da “Nova Era”, que se alimenta de elementos das religiões  orientais, também defende abertamente a reencarnação. Em síntese, se os sacerdotes, pastores e evangelizadores hoje quiserem proclamar sua fé na ressurreição, devem ter consciência de que  muitos cristãos não têm ideias claras, estão confusos sobre o assunto e que o farão no contexto de uma sociedade que professa abertamente o reencarnacionismo sob diferentes formas. Para os reencarnacionistas, a alma salva-se pelo seu próprio esforço. Para a fé cristã, o corpo não é um elemento negativo do ser humano do qual se deva libertar, mas constitui uma parte integrante de sua humanidade. Portanto, não se trata de deixá-lo para assumir outro em outra existência. A vida humana é uma, é decisiva para todas as pessoas e para cada um.

Vejamos agora o que  significa ressurreição. A ressurreição dos mortos também não é uma conclusão científica. Para nós, cristãos, é verdade de fé que tem Jesus Cristo como modelo, o “primogênito dos mortos” (Cl, 1,18). Segundo a fé cristã, Deus ama o homem todo, que é um corpo e alma, um só. Por isso, no judeu-cristianismo, a fé na ressurreição é uma consequência da própria fé em Deus. O Deus no qual o cristão crê é um Deus de amor que o ressuscitará como ressuscitou o seu Filho. Na paixão- ressurreição de Jesus Cristo, a morte foi vencida definitivamente. Para o cristão, a morte única desemboca em uma nova forma de vida que abrange uma nova forma de existência para o corpo. Na ressurreição dos mortos, Deus realizará para cada um e para todos os homens o que realizou para o seu filho Jesus Cristo na manhã da Páscoa. O Credo cristão  culmina na proclamação da ressurreição dos mortos, no fim dos tempo, e na vida eterna. Diz o catecismo: “Cremos firmemente - e assim esperamos- que da mesma forma que Cristo ressuscitou verdadeiramente dos mortos e vive para sempre, assim também, depois da morte, os justos viverão para sempre em Cristo Ressuscitado e que Ele os ressuscitará no último dia. Como a ressurreição de Cristo, também a nossa será  “obra da Santíssima Trindade” (N. 989). Desde o começo, a ressureição dos mortos foi um elemento essencial da fé cristã. Crendo na ressurreição  dos mortos, seremos cristãos. A ressurreição dos mortos foi revelada progressivamente por Deusa seu povo.  A esperança na ressurreição foi se impondo como como uma consequência intrínseca da fé em um Deus criador do homem inteiro, alma e corpo. Nas provações, os mártires macabeus confessam: o rei do mundo nos fará ressurgir para uma vida eterna, a nós que morremos por suas leis. (2 M.C. 7,9).

Para a Igreja Apostólica, a ressurreição de Jesus torna-se o fundamento seguro de sua fé na ressurreição dos mortos. No centro da fé cristã está ressurreição de Cristo e a nossa.

A Bíblia expressa a fé na ressurreição dos mortos na linguagem e visão de mundo da época. Nem poderia ser de outra forma. A compreensão da ressurreição dos mortos causava dificuldades aos ouvintes da época, sobretudo no mundo helenístico. Esperar a ressurreição dos corpos parecia  estultice e escândalo. Quando São Paulo falou aos sábios no areópago da cidade de Atenas, na Grécia,  sobre a ressurreição dos mortos, uns zombavam e outros diziam: a este respeito te ouviremos em outra ocasião. (At 17, 32). Como hoje, já naquele tempo a questão era: Como isso acontecerá? Paulo tinha consciência disso: “Mas alguém perguntará: Como ressuscitou dos mortos?” ( 1 Cor 15, 35). Desde o começo do cristianismo, a fé na ressurreição deparou-se com incompreensões. Os saduceus a negaram. Há quem aceite que, depois da morte, a vida da pessoa humana prossegue de um modo espiritual. Mas como crer que esse corpo tão manifestamente mortal possa ressuscita para a vida eterna? Quando falamos da ressurreição, trata-se de uma corporeidade transfigurada pelo espírito de Deus e uma identidade essencial não material do corpo. Ensina-nos o IV Concílio Lateranense (1215) !todos ressuscitarão com o próprio corpo”. Como descreve São Paulo em 1 Cor 15, 42-44: “ Semeia-se em corrupção, e ressuscita-se em incorrupção. Semeia-se em ignomínia e ressuscita-se em glória. Semeia-se em fraqueza e ressuscita-se em vigor. Semeia-se um corpo terreno e ressuscita-se  um corpo espiritual. A fé na ressurreição dos mortos significa um compromisso com esta vida aqui e agora. Portanto, cabe-nos a pergunta: Que significa ressuscitar? O catecismo responde: “ Na morte, que é a separação da alma do corpo, o corpo do homem cai na corrupção, ao passo que sua alma vai ao encontro de Deus, ficando à espera de novamente  ser unida a seu corpo glorificado. Deus, na sua onipotência, restituirá definitivamente e vida incorruptível aos nossos corpos, unindo-os às nossas almas, pela virtude da ressurreição de Jesus” (N. 997). Para o Cristo, ressurreição não é  sinônimo de reencarnação. Ressuscitar significa que o mesmo espírito assume o nosso corpo no fim dos tempos. Ninguém, entretanto, sabe quando será o fim dos tempos, nem como. Com o evangelho de São João, até poderíamos admitir que nossa ressurreição acontecerá na hora de nosso morte. Mas a crença na reencarnação é inconcebível com a fé na ressurreição. O próprio conceito de ressurreição na Bíblia é duplo. Quando Jesus, por exemplo, ressuscita seu amigo Lázaro, ele o devolve à sua condição mortal (Jo 11, 1-44).O mesmo acontece quando Jesus ressuscita o filho da viúva de Naim (Lc 7, 11-18). Há, pois, uma diferença entre a ressurreição de Lázaro e do jovem de Naim e  a ressurreição de Jesus.  Os dois primeiros voltaram à vida como era antes e tornaram a morrer. Jesus, não. Sua ressurreição é transfiguração, transformação. Seu corpo torna-se glorioso e não torna a morrer. Seu corpo não sofre mais, não precisa comer nem beber. Seu corpo não está mais sujeito às leis físicas. Aparece aos apóstolos numa sala fechada e desaparece. Pode ser reconhecido quando se dá a conhecer. Durante longo tempo, apareceu e depois subiu ao céu (At 1,3) Quando nós, cristãos, professamos a fé na “ressurreição dos mortos”, afirmamos que ressuscitaremos no fim dos tempos,  como Cristo ressuscitou, com nosso corpo glorioso. Há, isto sim, dentro da teologia católica, quem afirme nossa ressurreição já na hora da morte. Nesse caso, imagina-se a ressurreição como a transformação de um casulo ( cadáver) em borboleta. A morte não tira a vida, mas a transforma. Essa interpretação não tira o sentido da ressurreição universal. Mas ressurreição nunca é reencarnação.

De que maneira ressuscitaremos? Responde o catecismo: Cristo ressuscitou com seu próprio corpo: “Veda as minhas mãos e os meus pés. Sou eu.” (Lc 24,39). Mas ele não voltou a uma vida terrestre. Da mesma forma, nele “todos ressuscitarão com seu próprio corpo, que têm agora”,. Porém esse corpo será transformado em corpo de glória (Fl 3, 21), em “corpo espiritual”( 1 Cor 15, 44) ( N. 999). Esse “como” ultrapassa nosso a nossa imaginação e o nosso entendimento, sendo acessível só na  fé. Segundo Santo Irineu, bispo do século II,” nossa participação na Eucaristia já antecipa, em forma de sinal, a transfiguração do nosso corpo por Cristo: assim como o pão, que vem da terra,  depois de ter recebido a inovação de Deus, não é mais pão comum, mas Eucaristia, constituída por duas realidades, uma terrestre e a outra celeste, da mesma forma, os nossos corpos que participam da Eucaristia,  não são mais corruptíveis, pois têm a esperança da ressurreição”.  Quando ressuscitaremos? Responde o catecismo: “Definitivamente no último dia”(Jo 6, 39, 40); “ no fim do mundo”(L 6, 48) ( n 1001). A ressurreição dos mortos está., pois, intimamente associada à parusia de Cristo: “Quando o Senhor, ao sinal dado, à voz do arcanjo e ao som da trombeta divina, descer do céu, então os mortos  em Cristo ressuscitarão primeiro”(1 Ts 4,16). Entretanto, teólogos baseando-se no Evangelho de São João, admitem que, como no caso de Cristo, a ressurreição individual pode ocorrer na hora de nossa morte. 

Então, reencarnação ou ressurreição? O catecismo responde decidido: “Quando tiver terminado o único curso de nossa vida terrestre” (L 648).     Não voltamos mais a outras vidas terrestres. “Os homens devem morrer uma só vez”(Hb 9, 27).“Não existe reencarnação depois da morte”(N 013). A reencarnação e a ressurreição situam-se no campo da fé, não da ciência. Entretanto, torna-se incoerente e desonesto quem quiser jogar nos dois quadros e, quem sabe, convencer outros de que esse jogo duplo é admissível. Não se pode ser cristão e admitir a reencarnação. O que opõe cristianismo e a doutrina da reencarnação é a ressurreição corporal. Por causa da união substancial entre a alma e o corpo, a morte humana é um mistério tão grande como o próprio nascimento. A fé cristã ensina-me que, separada do meu corpo, minha alma poderá viver com Deus no amor, mas minha esperança não se reduz a isso. Só a doutrina da ressurreição corporal satisfaz essa esperança. A doutrina da reencarnação contradiz a Sagrada Escritura e a tradição da fé da Igreja. Só Deus e a vida Nele é santificação, justiça e plenitude do homem. Enfim, só se leva totalmente a sério essa vida, quando entendida como única oportunidade de decisão por ou contra Deus e encontrar sua consumação na morte. Na cruz, Jesus diz ao bom ladrão: Hoje mesmo estarás comigo no paraíso”   (Lc 23, 39-43). Jesus diz hoje, não depois de reencarnações. De acordo com a Carta aos Hebreus: “Está decretado ao humano, morrer uma só vez e depois segue o juízo”(9,17). Em síntese, biblicamente não se pode defender a reencarnação, Assim sendo, como cristãos, devemos ter clareza de que a reencarnação é irreconciliável com a ressurreição, como Jesus, os apóstolos e a tradição da Igreja no-lo ensinam. Por isso, o cristão crê na ressurreição, não na reencarnação. A reencarnação põe em jogo não somente a fé na ressurreição, mas toda a salvação cristã.